9 de janeiro de 2009

Cadillac Records Movie


Esse é o título original do mais novo filme sobre o blues, e mais especificamente sobre o que girava em torno da Chess Records entre 1952 a 1967. Para quem não sabe, a Chess Records foi a principal gravadora de Chicago nos anos 50 e uma das pioneiras do Rock and Roll, e se diferenciava porque tinha a capacidade de gravar um grande som de baixo e harmônica, e tinha em seu mainstream alguns dos maiores da história do blues, como Muddy Waters, Howlin Wolf, Little Walter, Willie Dixon, Etta James e claro Chuck Berry, entre outros. É nesses artistas que o filme se foca, principalmente no Muddy Waters por razões óbvias e em torno do Leonard Chess.
O filme não tem muito mistério, pois conta a história de um judeu pobre (Leonard Chess, interpretado por Adrien Brody) que tem uma grande visão em relação a música negra, e dá espaço e reconhecimento (pessoal e financeiro) a todos os seus artistas. Paralelamente, conta a história de um joven negro (Muddy Waters, por Jeffrey Wright) que toca guitarra e canta, que abandona os campos de algodão no Mississipi e se muda para Chicago e vai atrás de seu sonho. E no decorrer do periodo 1952-1967 conta o surgimento, o auge, a queda do Chicago Blues, e o resurgimento no final dos anos 60 com as bandas britânicas como The Animals, Rolling Stones e Eric Clapton.

O filme personifica os artistas muito bem, pois tanto o Leonard Chess quanto o Muddy Waters eram pessoas muito queridas no circuito de blues por serem pessoas decentes e talentosas. O filme personifica bem também Howlin Wolf com uma mistica muito interessante falando sobre a lenda é que um espirito saiu de um túmulo e tocou sua guitarra, e por isso ele uivava para a lua todas as noites e além disso, o ator Eamonn Walker que interpreta o Wolf tem a MESMA voz e entonação. Personifica também Little Walter como um sujeito instável, Willie Dixon (interpretado pelo ótimo Cedric the Entertainer, e que injustamente tem um papel menor do que seu personagem merecia), e Etta James como uma grande cantora porém auto-destrutiva, e é muito bem interpretada pela Beyoncé (uma verdadeira surpresa), que dá um verdadeiro show nos vocais (impressionante a diferença que dá colocar a voz certa, cantando a música certa no lugar daqueles lixos do R&B atual). E claro Chuck Berry como um egocêntrico talentoso e mercenário.

Se por lado o filme ambienta muito bem os anos 50 no "clima" da época, seus personagens, a questão do racismo, e se mantém nos trilhos como uma história baseada em fatos reais (e muita coisa é real mesmo, como a "rincha" entre Howlin Wolf e Muddy Waters), por outro lado se perde em algumas coisas. A promoção como um filme sobre sexo, violência, racismo e rock and roll é no mínimo exagerada, pois sexo e violência não são elementos excenciais a trama (à excessão de de Muddy Waters que realmente era o Hoochie Koochie Man), e visam apenas atrair o público, portanto ficou artificial. Os Cadillac's mereceriam tanto destaque se o filme fosse sobre Elvis Presley, e não foi o caso. Algo que também me incomodou foi que o filme foi abrangente demais, pegando um período muito grande de tempo com muitos personagens importantes, e seus atores não tiveram espaço na tela para os seus personagens crescerem, e logo algumas coisas passaram batidas e o filme se tornou corrido, desesperado. Talvez fosse mais interessante se o filme focasse apenas no Leonard Chess e Muddy Waters, num período menor. Apesar disso, o filme tem um ótimo encerramento se aprofundando no período final da Chess Records, no envolvimento entre a Etta James e o Leonard Chess e sua morte. A sequência da que possivelmente seria a última gravação no estúdio, "I'd Rather Go Blind" por Etta James chega a ser emocionante pois a interpretação da Beyonce é muito forte (ela merece no mínimo um Grammy por melhor interpretação vocal feminina).

Aliás, esse é o grande forte do filme: a trilha sonora! Sao 2 CD's que valem muito a pena ser adquiridos, pois os arranjos são bem fiéis, e a sonoridade de baixo e gaita mantém a tradição da Chess, só que nestas versões existem guitarras muito boas (embora nas gravações originais da Chess Era do Muddy, Wolf e Little Walter tivessem ótimas guitarras, os timbres eram apagados - os da Sun Records eram infinitamente melhores). Pois bem, nessa trilha sonora existem canções do Little Walter como Last Night, Juke e My babe, de Chuck Berry como No Particular Place to Go, Maybellene e Nadine (uma das melhores dessa soundtrack), Muddy Waters com Fourty Days and fourty nights, I can't be satisfied Hoochie Koochie Man e outras. Mas os destaques ficam para as músicas da Etta James, na voz da Beyonce: At Last, I'd Rather Go Blind e All I Could Do Was Cry já valem o disco. Uma curiosidade é que muitas das músicas são cantadas pelos próprios atores.

Eu fico pensando porque o povo negro americano deixou de lado a Black Music Tradicional (entenda-se pelo Blues, Soul e Funk) em troca do R&B de hoje. Eles faziam (e nessa trilha mostra que quando querem, ainda fazem) melhor do que qualquer branco de alma negra.

Postado ao som de Eamon Walker - Smokestack Lightin. Assustador de tão parecido com Howlin Wolf.

PS - Algumas piadinhas anti-gaitistas sobre o filme que fizeram sucesso entre meus colegas guitarristas:

"É um filme perfeito. O guitarrista é fodão e comedor, tem uma gostosa que canta pra cacete e o gaitista acaba morto!"

Outra:
"Só mesmo um gaitista para cantar a mulher de Muddy Waters!"

Postado por Társio.



2 comentários:

Hohmer disse...

Piadinhas com gaitistas a parte, o filme se não teve a possibilidade de mostrar cada artista como deveria, ao menos chama a atenção do público para o blues, a Beyonce tem um público enorme que com certeza conhecerá as raízes daquilo ela assim como outras artistas fazem hoje. Quanto a trilha sonora, Viva kim Wilson que gravou as gaitas do filme.

Anônimo disse...

Muito bom o Review Társio ! Quero assistir este filme em breve !

Essas piadas de gaitistas são uma grande sacanagem viu !!!!! Mas eu adorei !!!

Não fique triste André !!!!

Grande abraço